terça-feira, 11 de julho de 2017

assim o queira o coração....

súbitamente acodem as memórias como se fossem doces passarinhos que animam as esperanças de mais um dia...o tempo não vence as lembranças, assim o queira o coração, nelas colho uvas doces, e frutas silvestres...fica meu peito animado, tornam claro o meu dia e mais dourado o sol, restauram o meu alento, trazem-me uma paz doce, ausento-me numa liberdade gostosa, minha vontade é regressar apenas no inverno na esperança de o suportar, ver Dezembro chegar e com lucidez, quem sabe continuar a caminhar...talvez! partir, hei-de partir, não vou queixar-me da sorte, a morte é bem certa e logo aperta o peito, sigo a minha estrela, o caminho está feito...

natalianuno

terça-feira, 20 de junho de 2017

já não corro, mas voo...





estava eu tão feliz naquele momento, o dia claro, umas nuvenzitas brancas e todas as chaminés da aldeia fumegando, brilhavam meus olhos num rosto apetecido à espera dum jovem por mim enlouquecido...no meu corpo passou o silêncio e voei como uma andorinha em busca da primavera do amor, tanta doçura nos olhos, tanto bravor no coração, tanta juventude...é bom regredir no tempo, abraçar de novo o sonho agora que sou o barco preparando-me para partir levando a recordação do amor vivido permanente no pensamento... este é o retrato duma mulher madura, frágil, triste e desassossegada, lembrando a inesquecível adolescente de pureza intacta, hoje esmorecida num lamento, trazendo em si uma luz nostálgica e enternecida no olhar...escancaro as janelas da minha alma, deixo para trás o desencanto e vou continuando a sonhar, dissipando as minhas névoas, desprendendo-me da realidade, misturando realismo, imaginação e ternura quando a vida já pesa...

natalia nuno

domingo, 18 de junho de 2017

o aroma das lembranças...





acendi o candeeiro a petróleo da mesa verde, onde permanece a jarra com um lírio à minha espera, a casa retém o cheiro a lareira acesa um hálito que tolda meu coração e a certeza... é o ninho que deixei! - uma cotovia ainda se instala no telhado arrulhando baixinho, e posso sentir em suspenso todas as vozes que ainda percorrem a minha memória, aqui fico cativa com o intento de fazer perdurar o sonho... lá fora a trepadeira assiste a tudo, urdindo cegar-me com a sua beleza... quantos degraus havia?- sete, como recordo com nostalgia!- no terraço o vento quebra o silêncio, sento-me na cadeira do pai , escrevo aos ausentes e dobro-me perante a saudade que me assalta nesta momento....há um rio de água cálida que me abraça pela cintura, e um loureiro que me despe a alma com ternura, tudo me oferecem mas me negam, tal como o tempo me nega o rosto e eu sinto o desgosto...ouço um ranger, vai agora o sol a prumo, talvez seja meu pai de volta entreabrindo a porta  e meu coração de alegria se solta, cresce o pó na minha lembrança, afasto a cortina, adentro-me em mim mesma e deixo-me a sonhar aqui na casa da ladeira...onde eu fui por inteira... criança, lírio silvestre da ribanceira....

natália nuno

quinta-feira, 15 de junho de 2017

o retorno do sonho...





ofusco-me na lembrança do teu corpo, cresce o frio das primeiras sombras...anunciam-se as estrelas nas janelas da alma, é inquietante o silêncio enquanto as horas destilam...ali ao lado desperta um pintassilgo que faz tremer as folhas, chilreando nos ramos da minha saudade, o sol deixou de incendiar as veredas do meu coração, vou seguindo o rasto do sopro da tua voz ao meu ouvido, há lembranças que me esperam , sinto-lhes o cheiro molhado das maresias e sonho com as cores das flores que me oferecias, e, assim se faz manhã na minha noite escura e esta felicidade o meu coração inunda de ternura... as laranjeiras olham-me, trazem-me frutos d' ouro e eu sonho-me menina... adoça-se o vazio, esqueço o ardil do tempo... mas, abrevia-se a minha alegria, retorno do sonho, deixo o paraíso para enfrentar o inferno...sou uma criança confusa vinda do éden da minha infância, refugio-me nas palavras como borboleta trémula, olho meu poente cinzento e volta a mim o receio de como seguir o jogo do destino dos meus passos... deixo-me ir nesta utopia que me leva...

natalia nuno

sexta-feira, 12 de maio de 2017

remota história...



o silêncio e o esquecimento andam perdidos no tempo,num solitário jardim que é o teu corpo e o meu, terra de aromas que retorna de quando em quando a sentir o alfabeto dos pássaros, o sorriso das flores que chega aos nossos olhos, a luz das estrelas que nos enlaça, e o sol  com lânguidos fulgores  que nos tatua a pele ...passam por nós andorinhas com acordes de violino no ar puro da manhã ainda adormecida, chega em nós o outono com uma pincelada de sol, sorrimos à luz que nos acaricia e às nossas mãos chega o meio da tarde, porque o meio dia já se foi numa rajada de vento, assim se define o que existe entre a felicidade e a tristeza, amo-te mesmo no silêncio e esquecimento, e sonho-te na inteira juventude, sonho este que é remota história, velho sonho de ébrias estrelas que brilharão no adeus à tarde, enquanto os arvoredos levarão nossos medos, deterão o tempo e desdobrarão a presença da cor no nosso amor...serás o último pássaro levado nas ondas do vento até às sombras das ramas, e eu esperarei por ti entre os abetos para ouvir-te dizer, que para sempre me amas...

natalianuno

sexta-feira, 5 de maio de 2017

inventário de esperanças...



abraço a vida, cada dia é uma oferta inesperada que vou transformando numa eterna tarde de domingo à espera do crepúsculo...olho a valsa que as folhas mortas executam sobre a poça d'água e vou decantando recordações enternecedoras, viajo no tempo e a imaginação corre sempre à frente, lavrando versos de risco e de beleza, para que a palavra não morra num tempo ignorado com a presença do silêncio...o coração recolhe um oceano de ternura que vai crescendo das linhas das minhas mãos e fixando-se na textura do papel, arrepia-se minha pele, e eu reescrevo fragmentos da minha vida, sendo eu o primeiro leitor que tudo leio com amor, e me interrogo, valerá a pena partilhar?- quem amará este inventário de esperanças, quem delas desdenhará?- eu habito aqui nas suas margens e vou perdendo o rumo da força, vai-se embaciando o olhar numa despedida silenciosa, numa indiferente solidão, os anos me levam perante todos os olhares e esvaziaram  meus olhos, deixando-os ao relento no entardecer... vão procurando o seu próprio alento.

natalia nuno

ser poeta...



Está dito que não é coisa fácil. Poesia é coisa séria, desista qualquer escritor de a tentar criar, não é por saber muito, nem muito bem saber escrever, poeta pode ser até analfabeto, porque a poesia lhe vem da alma, lhe nasce dum dom que possui
do qual nada o fará desistir por mais que tente. O Poeta se afeiçoa à Poesia, vem-lhe da grandeza dos seus sentimentos, e ainda que os outros lhe apontem defeitos, ele a acha uma obra superior.
Entristece se lhe fecham as portas, se o excluem, alegra-o o poder contribuir, satisfaz-lhe a amorosa admiração dos amigos,
tal como ele com sensibilidade e riqueza de expressão, numa serena ou sobressaltada esperança de dar o seu melhor.
Na Poesia se expressam sentimentos de saudade, de sofrimento, de amor...haverá  porventura mais belo? Nada se lhe pode igualar! A poesia é um impulso que vem da alma,  testemunho de autenticidade.
Eu e a minha mania da prosa...vou tentando, isto que hoje escrevi é o que sinto, os poetas são gente, por outra gente julgados loucos.

natalia nuno

ouvindo Chopin...



Estou nas nuvens ouvindo Chopin, subo montanhas, distancio-me do Mundo, esqueço as encruzilhadas da vida, e fico grata a Deus, por me dar a opção de ficar por lá até querer, quem sabe esqueça o caminho de regresso...sento-me numa nuvem branca, e voltarei em Maio, num dia lindo, haverá lilases a rebentar, e eu, irei viver a vida até ás minhas últimas forças.Os meus olhos verdes herdados, olharão uma e outra vez o mar, também o sol até desaparecer no horizonte, assim amansarei a saudade, e aligeirarei a minha ânsia.

natalia nuno

lembranças...



Hoje lembrei... nasci num dia em que o rio galgou as margens e alagou as hortas,  soltou-se livre.
Tal como ele, eu, brava nascia, não sorri nem pestanejei, gritei, trazia comigo a impetuosidade e a curiosidade p'lo Mundo onde acabava de chegar.
Dentro de mim ainda essa criança pequena, num sopro de inspiração, lá volto à infância, onde a vida tinha outro sabor, e é um amargo doce que a recordação me provoca. Para além da criança, lembro a adolescente que conservo com comovido afecto, feliz, descontraída, assim a recordo.

Orgulho-me da aldeia, amo os que lembro com saudade, pobres materialmente. mas ricos interiormente, foram eles que deram sentido e esperança ao meu desabrochar.
Hoje lembrei também dos rapazes de mãos rudes e gestos desajeitados e dos bailes onde tanto me divertia. Há uma história que conto a mim mesma diáriamente que jorra desta fonte que é o meu passado.
Passeio pelo Mundo onde me deixo enfeitiçar por belos recantos, mas é sempre a volta à aldeia que profundamente mais me absorve, onde a memória fica viva e clara.
A aldeia e eu seduzimo-nos mútuamente, há recordações que acarinho e evoco nas minhas horas silenciosas e sombrias.
E assim me vou distanciando, sentindo-me um ponto ínfimo no final do caminho.
Meu corpo já não me pertence, devora-me o tempo, mas a Poesia reconforta-me um pouco, e a memória é guardiã do arquivo das minhas lembranças.
Repito para mim:
«Tu és ainda muito nova»
Tudo não passa de ilusão
A imagem que vês no espelho
pedindo socorro não és tu,
essa não!
Carrega aos ombros aquela que só tu vês
Tu és, a que vive dentro da tua memória
Essa é que és!
A que sonha que há-de ir mais além
Já sem nada de seu
Há-de sorrir como ninguém
Como águia, voar p'lo céu.
Conquistar a Vida
Pois nasceu para voar
Olhos bem abertos
Ouvidos bem despertos
E de emoção gritar.
Que és eternamente jovem!
Sofres  da passividade
de ver o tempo a passar
Mas na saudade
Sabes o coração reconfortar.

natalia nuno
rosafogo

capricho




Ontem não vimos o sol, choveu sem violência, e ficámo-nos a olhar o rio, esse rio que já é oceano, surgiram mais umas rugas nas têmporas, enquanto as nuvens se afogavam na luz morna da tarde. A noite é agora carvão e o horizonte já abraça o crepúsculo, e eu recordo o dia de ontem, pois a amizade me arrancou um sorriso.
Amanhã uma luz macia trará um novo dia, e eu serei o que sou por quanto tempo DEUS quiser, me enviará um sopro doce do vento para me adoçar o peito, que pende um pouco para a tristeza.

A vida vai-se prolongando
e botões de lírio (sonhos) vão despontando.


natalia nuno

quinta-feira, 13 de abril de 2017

estremecimentos...



com a excitação duma adolescente acalento a esperança de dias de sóis, e deixo-me contagiar pelo aroma que brota dos laranjais, esqueci meus ais, leio cartas d'amor em voz alta afectuosamente e sinto-me gente, com um sorriso de piedade acabo por cair em letargia...assim se passa mais um dia...olho ao redor com afecto tantos sinais de vida, só meu coração é um horizonte de escombros e os meus olhos um céu esborratado a reprimir as lágrimas... estranhos sons me martelam a mente... ou será desvario? no sonho corro numa lezíria rosada onde o tempo não passa, ao longe o traço dum rio, e sonhadora sou como uma vela que não se consome, os anos não contam, eu sou  dona do tempo, flutuo no aroma das rosas, reflicto, colho um profundo silêncio,  deixo-me embalar no balouçar da aragem, e assim amenizo a cansativa viagem...são agora as sombras rendilhadas que me cobrem, a tarde me apazigua, palpitam meus dedos na escrita... eu sonhadora derrotada pelos meus sonhos, a retirar da obscuridade esta minha metade...

natalia nuno