terça-feira, 13 de março de 2018

tempo de acomodar a saudade...





já foi flor, mas as pétalas foram caindo e as raízes ficaram sonâmbulas na volúpia dos outonos, nas sombras da melancolia...hoje, é recordação e no crepúsculo do peito quando o sol já declina, ainda se permite um brilhozinho no olhar, que aquece o coração e impede que a tristeza assome ... vai prolongando o sonho, esquece os ponteiros que deixaram de existir e que à força lhe tiraram horas de amar, horas infindas e saudosas que a memória ressuscita...e ela, questiona-se sobre quem lhe abrandou o ritmo do coração, quem lhe roubou o acalanto dos devaneios, agora que o cabelo lhe prateia as fontes e a longa existência lhe extravia os pensamentos quando num tímido vôo  sonha voar ao passado,.. o tempo sulcou-lhe o rosto, tal como o arado sulca a terra, humilde flor, perdida na emoção do caminho, mas na alma leva a inocência de criança, uma ternura cega e o amor inteiro... a felicidade foi veloz como a cascata dum rio, agora num doce cansaço, tenta a cada dia reconciliar-se com a vida amainando a inquietação do seu outono...já nada lhe poderá devolver o corpo que incendiou o amor, nem o espelho voltará a mostrar o rosto onde tudo era regato de água límpida, era assim, hoje volta a cabeça apenas para dizer adeus...

natalia nuno

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

era de festa e de amoras...



ri, inventa e chora e o seu olhar a observa por fora, o outono trouxe-lhe castelos por abrir e mais um dia que há-de vir, e um tempo que faz medo, sonhos parados segredo, insónia debruçada na almofada e quase acredita que ainda é amada...é quase flor de inverno, nem feliz, nem infeliz, a sua voz é nevoeiro mas carrega com ela o cheiro da madressilva, da giesta...era de festa e de amoras, há muito tempo há tantas horas, os seus saltos de esperança, a criança que passa a vida a enfeitar, a fazer a trança, a colocar-lhe o laço, e num abraço um adeus que faz doer e uma lágrima a correr...tanta estrada...e ela ainda se julga amada!
natalia nuno

sábado, 24 de fevereiro de 2018

janela aberta ao sol...



às vezes sentimos uma alegria incomunicável, imaginamo-nos numa estrada infinita, rodeada de pequenas coisas que ao olhar nos fazem  felizes... é quase como sonhar e não querer acordar, de repente as palavras tornam-se leves, e uma chuva de finos pensamentos me afastam do
destino que é morrer...então os dias tornam-se vagarosos, e desaparece aquele cansaço habitual tão desmoralizador, diminui a ansiedade, surpreendida sou como uma janela aberta ao sol, sinto-me mais viva, esqueço a angústia vinda do fundo dos tempos e a vida muda de feição... momentos perfeitos estes, onde até o mundo me parece melodioso cheio de movimento, paz e alegria... posso até ouvir o respirar da terra, gosto destas horas caladas, só eu e essa alegria incomunicável, aproveito para relembrar os tempos de menina e a minha terrível imaginação, quando me debruçava no peitoril da janela pequenina, a ouvir p'las manhãs o coaxar das rãs...

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

a alma suspensa...





o tempo passa e já pouco me move, com ele os dias vão e já não é vasta a alegria de viver como outrora, e a vontade de quando em quando anda escondida num esconderijo do meu cérebro, mas há sempre um relógio no meu interior que mansamente me desperta e me vai levando mais um pouco avante e aí me sinto como uma criança silenciosa que só agora acordou e vai acolhendo a vida conforme ela se lhe depara... e lá vou enchendo de palavras o ar que respiro. e ao mesmo tempo recordando a infância, relembrando o anoitecer morno das tardes de fim de verão no lugar onde nasci, as gentes que amei, as flores baloiçando ao vento e o perfume macio vindo dos laranjais, lá fico a sonhar, volto a noivar, sou menina do campo trago a luz da primavera nos olhos, a voz fresca como uma manhã orvalhada, nos cabelos o odor a hortelã e a alma suspensa como se fosse renascer de novo...e, milagrosamente saio do labirinto, acolho a vida sem nevoeiro, ao contrário, prometendo-me sol nos canteiros do meu coração...perco-me no infinito da memória, fecho os olhos e do sonho não pretendo mais acordar e nem o aroma das letras me trará de volta.

natalianuno

domingo, 21 de janeiro de 2018

agora que o sol se pôs....



o tempo sequestra suas asas e algema o sorriso, os sonhos fazem-se nela silêncio, e a saudade faz-se grito...despe-se de Maio, veste-se de Outono, e os olhos secam...aos ombros carrega a tristeza. e no cartaz fala de esperança que ainda lhe resta, feita de retalhos...alimenta no peito gaivotas, lembranças que vão e voltam trazendo saudade de si, assim, nesta amarga condição vê chegar o frio à vida e o vazio à mente... o corpo de garça abriu e fechou em flor, traz recordações presas às raízes da memória em conflito com o presente  e a idade sabe de cor embora de Janeiro faz por esquecer o ano inteiro, da sua boca rebentam palavras de cor outonal, navega em dois rios, num deixa-se levar pela trama do tempo, e no outro pega nos remos e rema contra a maré com fé, enquanto o coração estremece e, ainda que nada regresse, volta sempre ao lugar do sonho sem ousar despertar... cansada da viagem,  perdida desse resto de si, olha a imagem e como louca ri...

natália nuno

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

de pálpebras cerradas...



não deixo de encher o meu coração de amor, que o meu dia e a minha noite seja um diadema de estrelas, que o amor seja o centro da minha atenção vibrando sempre com a veemência do canto dos pássaros....sons límpidos, ágeis e felizes ecoam, fundem-se com o vermelho da tarde e eu escuto-os na minha memória até sentir o impulso do sangue que corre em mim e, assim me deixo levar pelo sonho e por esta força que me atrai, numa abandonada liberdade até uma nua claridade....revivendo através do meu olhar interior, o mágico e o real do que foi a vida...nada como viver assim...dia a dia...na esperança de que o próximo seja sempre melhor... debruço-me numa lágrima de chuva grossa, reflectindo, e o tempo deixa de fazer mossa, sou como um pequeno riacho ao amanhecer, e meus lábios deixam correr as palavras prazeirosamente à espera duma nova esperança... e quando a melancolia começa a doer, e a colocar um nó na garganta olho aquele pássaro que me canta aos ouvidos e me leva às eternas estrelas...

natalia nuno

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

capricho



ontem não vimos o sol, choveu sem violência, e ficámo-nos a olhar o rio, esse rio que já é oceano, surgiram mais umas rugas nas têmporas, enquanto as nuvens se afogavam na luz morna da tarde... a noite é agora carvão e o horizonte já abraça o crepúsculo, e eu recordo o dia de ontem, pois a amizade me arrancou um sorriso...amanhã uma luz macia trará um novo dia, e eu serei o que sou por quanto tempo DEUS quiser, me enviará um sopro doce do vento para me adoçar o peito que pende um pouco para a tristeza...a vida vai-se prolongando e botões de lírio (sonhos) vão despontando... à minha janela chegam os ramos dos salgueiros, onde os pássaros aventureiros me espreitam por entre a folhagem, curvada encosto-me à parede a olhar o rio, a matar a sede, a sede de amar, meus olhos seguem o esvoaçar das aves, lembrança que lentamente se apaga, olho as flores que sugerem amor, e é aí que o sonho começa, deixo-me acariciar pelo vento, sou como a flor pela chuva seduzida, absorta em pensamentos, desafiando a vida... afinal sou real como uma flor!

natalia nuno

eu e a solidão...



a solidão chegou à estação, procurou por lugar e sentou-se à minha beira, assustada com o apito do combóio em marcha refugiou-se no meu peito, aí se acomodou mais as malas que trazia consigo, ficámos as duas caladas, logo ela insistiu que me conhecia e até à hora da partida partilharia comigo o tempo... agora que já a conheço bem, andamos de mãos dadas, nesta estação cada vez mais esbatida que é a vida, deixamos tudo para trás e partimos sem destino, levamos a saudade de épocas felizes e seguimos viagem resignadas com este tempo triste. Dizemos uma à outra: é um privilégio ter chegado à estação sem grandes desilusões, sem ter perdido a voz e ainda com um pouco de audácia neste destino misterioso da vida... assim vou desenhando sonhos, sem deixar afrouxar o pensamento.

natalia nuno

a cor do outono...



hoje não ouvi o pintassilgo, talvez porque o ramo verde onde costuma pousar se encontra nu, não houve acordes de violino, e nem a minha mão indigente e cansada quis escrever palavras macias no poema onde eu pudesse o sol emoldurar... mesmo com a coragem a desabar... retrai a mim o silêncio e o coração descompassou, minha voz voltou à mudez, também eu perdi o ramo, irreparável descuido de meus olhos sombrios, entre a folha de papel e eu... poema feito ao acaso, muito breve e muito raso, com memórias cheirando a alecrim, pedindo que não esqueças de mim...quase... o tempo outra vez de ternura,  fecho os olhos e logo a nostalgia  a fazer doer! - - com a cor do outono e a maldição do tempo a passar, como eu precisava ouvir agora o pintassilgo tocando os acordes de violino para o coração ressuscitar... e tu, ousasses vir de novo me abraçar... enquanto meu olhar se perde no ramo que era verde...

natalia nuno
foto  de claudia giraldo

sábado, 21 de outubro de 2017

pedaços soltos...



deixa-me o sabor da tua boca, acaricia meu rosto fatigado na tarde lenta em que as minhas mãos tecem palavras de loucura, como se rezassem!...olha-me com espanto, como se eu continuasse a ser o teu encanto, nua ou vestida percorre a minha pele, poro a poro, afunda-me no teu peito com aquele jeito, com que eu sempre coro...não me deixes neste silêncio estranho, ou no vendaval onde me dobro para não quebrar, o tempo cruzou-se comigo nestas longas caminhadas pejadas de partidas e chegadas, deixou sinais que não posso esquecer e restos de esperanças que quero reter...há lembranças que se vão desvanecendo tal como a tarde, percorre-me o sonho na claridade do teu olhar, onde a felicidade e a ternura são canção de embalar...os meus dedos de menina escrevem umas linhas de amor, e nas tuas mãos, esconde-se a lua vestida a rigor...

natalianuno

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

outro rosto...



os meus pensamentos desviam-se, insulto o sol que me queima o corpo e me incendeia a alma,  volta, traz contigo os sonhos que sonhámos e as conversas esquecidas para que não se percam, não sei onde estás, só sei que a inquietação me atravessa o coração e na boca trago o sabor amargo da tua ausência, logo hoje que a lua beija as varandas antigas e os meus dedos tentam arrancar-me as veias, os meus pulsos mal se aguentando, ouço-me num longo silêncio e assim atravesso a vida, meus passos já conhecem o caminho, talvez não vejas, talvez não sintas mas as rugas detêm-se ao redor dos meus olhos, e há dias em que a saudade me passa ao lado...

natalianuno