sexta-feira, 13 de outubro de 2017

rio da vida...



por te sentir e amar, sinto angústia por te perder, é dado amar sempre mais, não importa que um de nós adormeça primeiro, quem ficar agasalhará no peito a primavera deste amor...como se nada houvesse mudado...nada separa o que não pode separar-se...numa pequena barca atravessamos o rio, desatentos, não demos pelo tempo que caminhou ao nosso lado, breve, como a sombra duma ave que passa...
natalia nuno

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

saudade ...



o outono abrigou-se...desnorteado, à espera que as abelhas fiquem sonolentas e o sol ajoelhe, espalho palavras na eira dos sentidos e grito aos pássaros que as deixem amadurecer...não, não tomei outro caminho, nem outro barco nem outro rio, sigo a voz que talha o meu silêncio na calada da noite...reconheço ainda as papoilas que habitam meus dedos... são quase tudo que carrego da madrugada, que já vai longe...

natalia nuno

à procura....



ando à procura de sonhos onde possa abrir caminhos aos salpicos de sol, aos sorrisos vestidos de branco, à imagem escondida no recanto da memória, aos fios brancos de cabelo da minha fisionomia, e à minha velha ânsia que continua a debater-se...antes que tudo me sufoque...
natalia nuno

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

rosto que não encontro...



rastejam sóis em busca de poentes...enquanto recolho o cheiro das maresias pelos atalhos do outono, há um rosto que não encontro, escapou-se para longe de mim, ele que era a minha blusa de domingo...o tempo avaro o pegou! agora perdida nas horas onde tu és ainda, morre-me o tempo de ti, mas o sol não afrouxará apesar das sombras...hoje nem os pássaros saudaram o nascer do dia, e no meu coração a saudade fez ninho de mil maneiras... e trouxe até mim a nostalgia! resta o cheiro das amoras, e a tristeza de ser cântaro sem água, tocou-me o outono e fez de mim uma imagem desfazada...

natalia nuno

desabafos...



seus passos foram feitos para andar, não para se arrastar, às vezes formula frases indistintas  em contemplação ao que a vida lhe oferece, e no seu interior há sempre uma força que a anima...uma ilusão persistente que a persegue e que faz com que esqueça os estragos na alma que a vida conseguiu retirando-lhe a paz aquietadora do coração...nas horas de silêncio que passam por ela, reflecte sobre como rapidamente passou a juventude também a chegada da velhice e, como seu rosto morreu escondendo a alegria num sorrir mudo, onde o silêncio toma conta de tudo...ouve a voz do seu desassossego, já não vai haver um amanhã diferente, é agora como carta amarrotada deitada ao chão da indiferença, tudo é diferente sim daquele tempo de menina, o que sente é demasiado forte e doloroso e chama-se saudade...esboçada aguarela de rosto macilento, triste como a noite, triste tela sem vida nem florescimento...

natalianuno

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

entre a noite e a insónia...



olha de novo o céu de nuvens cinzentas, seus pensamentos ledos e tristes vagueiam perdidos, a ternura que a percorre é como a frescura da manhã, caminha solitária e seus passos são lentos como o gotejar da mais íntima fonte, nos olhos molhados traz a saudade, mas no coração, sempre a mesma sede de abraços...seu sorriso de  murta e jasmim vai-se abrindo almejando seu desejo de horizontes, já foi esbelta e harmoniosa e hoje se surpreende, o tempo a deixou de fulguração despida, cansada, mas grata à vida por a deixar envelhecer aguarda a noite que lhe traz sempre um sigiloso fogo d'alguma felicidade... ouve de novo o beber das palavras pela folha de papel, e uma luz fugidia desliza sobre o tecto dos seus pensamentos, aproxima-se e evade-se  é a recordação a querer fugir-lhe, o peito aperta-se e ela permanece imóvel no silêncio de destroçados muros, permanece na espera que se abram clareiras e possa ser de novo flor imprevisível nascida das águas, seja sede, seja fragrância e de novo fogo e ternura para que possa inventar sonhos e ter tempo ainda de felicidade...quererá deixar pegadas na areia e se o vento as arrasar, sentir-se-à cada vez mais indefesa,  apagar-se-à sobre si mesma, será o final sulcado pela morte.

natalianuno

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

a chegada do outono...


o outono já se faz presente, na sua escura fragrância, é um jardim na penumbra...a sua luz é sensual, passa o seu tempo numa quieta agonia, é tempo de inacabados sentimentos, vai-nos desfigurando as feições e despindo a vida em silêncio, fala-nos com voz melancólica, sutura-nos as feridas, para que nunca mais voltem e desfralda um arco-íris em nós para que a memória não se esfume, quer que perpectuemos o valor da vida para que não se apaguem recordações, e nem sorrisos que arrancamos aos sonhos... tranquilo amigo é este tempo de outono...que se importa que continuemos cuidando de nós, mesmo no frio das horas..olho o horizonte e procuro por aquele fogo feliz, e já não sinto e não sei por quanto tempo seguirei neste mundo a que pertenço, as ruas são incertas e fugidias e as sombras aumentam, sinto o mundo a desabar fico sentida e muda de olhar quebrado, estremecem os rios do meu corpo e o vento adormece no meu peito...

natalianuno

sábado, 16 de setembro de 2017

viajantes da memória




que difíceis se fazem as palavras quando queremos falar daqueles dias em que o sol girava nas nossas mãos, e a vida tinha um som distinto e tomava seu rumo dando-nos felicidade, deixou-nos um sabor nostálgico, horas talvez mais solitárias, mas ainda assim o sorriso sempre aflora e a saudade que abraçamos nos traz bem estar... hoje estamos mais alheios ao rumor da vida, é maior o silêncio que nos toca...mas ainda entrelaçamos as mãos com a emoção da juventude, enquanto raios de luz se dissipam no nosso horizonte...somos viajantes da memória, lembrando encontros furtivos, cartas d'amor e sonhos loucos vividos por nós nesse Setembro distante, quando as primeiras folhas caindo ao chão falavam carinhosamente lembrando-nos que tudo acaba e como tal vivêssemos os momentos de poesia, saboreando a chama para não deixar que se apagasse...hoje gasto a caneta e as palavras a recordar e fico assim enquanto a morte não chegar....

natalianuno

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

fogo da ternura...



a carência de ti não me abandona, invento tempo de felicidade... meus olhos abertos pelo fogo da ternura voltam a embebedar-se de alegria num beber lento e doce, e a memória volta àquele momento distante quando comecei a desejar-te... e penetrou no vale agreste do meu coração a luz mágica do amor, cujo aroma encantador ainda conservo na memória, o teu corpo, o teu perfume, o aproximar dos teus lábios, até do mais pequeno gesto eu guardo a recordação...caminho imenso já percorrido, os momentos mais doces são ainda testemunhos dum amor que permanece em mim, fecho os olhos e vejo uma imensidade de imagens que me dizem mais que mil palavras e são minha recordação constante...o sonho me harmoniza a vida!... o tempo ficou para trás, às vezes o peito se enche de frio dum pavor desconhecido, como se já fossemos sombras ou cinzas, vamos avançando às cegas, até que um dia ficaremos com os pensamentos difusos e adormecidos como crianças...

natalianuno

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

perfume...sonho




ainda que tivessem passado décadas tudo continua igual na minha memória já um pouco desarrumada, visões íntimas a encher os meus sonhos de fontes a correr recobrando o seu precioso canto, e o tremor das árvores a despertar na primavera...o perfume do entardecer vindo dos pomares, e o vento batendo nos loureiros da beira rio...lugar onde guardei o meu universo...
as horas passam, horas da minha vida e a saudade e este amor férreo à vida não me abandona, morrerá comigo... trago manchas claras no rosto e minhas pernas de avestruz não são mais leves e airosas, também o olhar anda desprovido de vida, o tempo agita-se vai riscando os dias do calendário...escondo o rosto nas mãos e deixo fluir ainda aquele sonho que arranco dos retratos, baloiço-me na cadeira cheirando uma flor...

natalianuno

nostalgia dum tempo...



rostos bonitos......chega-me alguma tristeza, mas, não desvio o olhar, porque no fundo há uma sensação indispensável e que me dá uma certa felicidade, respiro profundamente e sonho o tempo que também passou por mim, quando nem o choro me deformava o rosto... e tudo me prometia uma vida tão intensa e feliz...

natalianuno