segunda-feira, 6 de março de 2017

loucura...



baloiço entre os sonhos e a vida num abraço de peculiar ternura e tudo são fascinações, lembranças de instantes perdidos, já distantes... na minha cabeça os ventos do outono, tão só a nostalgia me ouve, procuro romper as húmidas paredes que cercam meu olhar, retirar a presença fria que me cerca, trocar os dias monótonos por momentos felizes, e ter de novo essa força decidida que cria doçura e é amor...enruga-se o rosto, os olhos que eram estrelas ficam pássaros ocultos em quietude, enquanto vou repetindo palavras de pranto, de desejo candente, de frescura longínqua, simultaneamente sentimentos que me restam e a necessidade sonhar... o sonho sempre abarca felicidade, e traz-nos uma lágrima que nos afoga de saudade, incendeia desmemórias, e é como se o sossegado amor estivesse sempre à nossa espera...com as palavras faço colheitas de sonhos e neles sou uma violeta azul solitária flor, uma safira no rio, ou uma inquieta gazela...sou tudo o que eu quiser... enquanto na minha mão um melro cantar  sem idade e sem tempo...

natalía nuno

sábado, 4 de março de 2017

lago de palavras...



as palavras puxam pela memória, às vezes como instrumento de tortura  ficam dançando no cérebro, rodopiando com loucura e, numa irreflectida emoção incitam-me à decisão de escrever sentindo nisso  prazer e como de costume, a saudade arma-me o laço ... fico a baloiçar, saudade é sentimento  muita vez doloroso e a emoção perturba e destrói o coração... escrevo então um lago de palavras onde coloco o mais bonito cisne branco sob a luz das estrelas...criado do nada, surgindo do oásis da minha mente... e o que até então parecia inalcansável,  pela exigência da saudade torna-se possível, surge o poema com uma estranha sedução e a sede dum rouxinol ardendo na memória...coloco a inquietude na frescura dos verbos e a dor vivifica nas metáforas,  faço juramento que não lavrarei mais versos, nem sequer pequenos fragmentos, deixarei meus pensamentos no silêncio, na dor que passa, onde me exilarei sem retorno como lenda ao abandono...como o recolher duma flor...numa tarde de outono...

natalia nuno

sábado, 25 de fevereiro de 2017

sou tua...pequena prosa



não sei por quanto tempo vou caminhar, da garganta do tempo me vem esta solidão e é com ela que vejo meu mundo a desabar...ecos chegam de alguma voz distante e em lufadas de vento percorrem-me o pensamento, enquanto meus dedos crepitantes continuam a escrever, a agarrar-se à poesia como arpões, aos poucos morrendo de ilusões e nas janelas das minhas insónias procuro ainda o sonho e pequenas sensações que espalho em meu alento, sem que nada nem ninguém as destrua, porque o sonho é meu e nele eu sou tua...há uma sombra que surge denunciando passos e apesar da decadência eu sonho ainda com teus abraços...constante e cega, vivo nessa loucura da qual já não há volta, nesta fria obscuridade abro de par em par o coração deixo nele à solta para sempre a saudade.

natalia nuno

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

violenta-me o tempo...



quando fecho os olhos, alcanço estrelas que me iluminam no silêncio turvo das palavras, visita-me o futuro, e o frio trespassa-me até aos ossos, que mistério esconde?... acato o destino, as palavras concedem-me a dúvida que me deixa numa indefesa inquietude...tremem as minhas horas, abandono-me entre o monte e a urze e ali fico semente, a aguardar por germinar ainda um pouco mesmo sendo a minha estação o outono...sussurra-me o vento, trazendo-me sensações de velhas recordações e a minha memória, irrompe como uma borboleta cujas asas já mal se se sustêm, ainda assim, vive nelas a lembrança dum amor vivaz...o tempo pôs a sombra no meu rosto, enquanto o sol se escondeu no arvoredo, o silêncio se fez com chicotadas na mente, na boca palavras errantes e vazias, e no olhar os raios prateados da lua, a velar-me os pensamentos.

natalia nuno

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

agitada corrente...



fui diluindo memórias em palavras sentidas, em pequenas prosas, tal como areia engolida pela mar, resumo de anos vividos, com emoção, numa torrente de sussurros e quimeras que o coração não quis calar...audaz nas ideias. numa caligrafia errante fui levantando velas na fúria dos ventos, navegando nos sonhos, numa agitada corrente até me deixar tranquila numa nostálgica saudade...de repente a imaginação cai no vazio e, lá se vai meu próprio alento para um vale escondido, onde a única face é o silêncio e a noite desolada, apagada numa única lágrima que me afoga... e o mar que em mim pulsa segue o seu destino...enquanto o eco da memória me recrimina pela vida que se apaga num sopro frio e solitário...e me traz a saudade de menina.

natalia nuno

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

no mutismo do olhar...



quem me procura, o que se passa? desfaz-se a lua, o silêncio me oprime, a madrugada começa...entretanto o coração pulsa nas paredes aguardando a decisão da morte...as palavras voam e transformam-se nos meus dedos, os pensamentos surgem solidários e a escuridão fica mais ténue e eu começo a sonhar até ao feliz esquecimento de mim própria...abro a janela de par em par e esqueço o rosto quase sem vida que afinal é ainda o meu, aquele, que com uma confusa lágrima se acaba ao recordar o feliz tempo que tanto amava... e uma flor sempre renasce no mutismo dos meus olhos e nos meus dedos de solidão ainda há um rodar de ardores, promessas, sonhos, que florescem desesperadamente...chega assim à plenitude, todo o tempo que perdura em mim.


natalia nuno 
rosafogo

domingo, 8 de janeiro de 2017

estendo o olhar...



um murmúrio perdido que ninguém ouve ela traz  da infância, quando habitava um lugar de luz, hoje sombra escurecida... é pássaro que dá bicadas no vazio e ninguém dá pela sua presença. sussurra palavras trémulas e distantes que ninguém ouve e são como enfaroladas nuvens prestes a derramarem num chão com rumor a agonia, e ao mesmo tempo é ainda juventude ou apenas memória numa confusa dualidade... pôs o sorriso no esquecimento, por desejo ou capricho escreve poemas acariciando as palavras que despertam na sua memória, o sonho é a chave do seu viver... o seu corpo é a languidez da tarde onde o Sol já dormita, astro que sempre a acompanhará no silêncio turvo dos versos, numa solidão crescente, até que um dia o pulsar acabe...e nada mais perturbe o seu silêncio, nem lhe negue os seus desejos...um agasalho a cobre, feito de livros e folhas de papel onde a aguarda sempre um poema que quer conquistar...

natalianuno

sábado, 12 de novembro de 2016

criatura do amor...



a cada momento, meu pensamento caminha à procura de mim, quem fui, quem continuo a ser neste meu amadurecido viver rumo a um horizonte de doçura, rumo à felicidade, ao sonho ou à pura ilusão... à saudade! -  dou conta que o silêncio se faz fundo na minha alma, e na noite escura medito, enquanto as horas se extinguem e apenas sei que nada sei, que não me reconheço, que sou alguém que muito bem poderia ter sido diferente, mas não posso fugir, aqui fico presa aos espelhos...então, como um rio doce que corre ao mar fico a murmurar, fecho os olhos que nem sequer sabem porque choram para meditar,  alerta ficam os ouvidos para ouvir o eco de mim perdida, ponho-me de costas para a negação e apenas sigo o pulsar do coração, inverto o caminhar e me encontro na minha pequenez, onde as rosas se abrem numa fascinação que me entontece, e eu espero que tudo recomece , o sonho e a ilusão, já ouço o rumor dos teus passos, vejo-te ao longe estendendo-me de novo os braços, neles me ergo viva...criatura do amor!

natalia nuno
homenagem a
Florência de Jesus

desabafo...



Aqui já pouco ou nada acontece, mas crescem-me os pensamentos e corre-me o sangue nas veias, e o meu corpo vive e morre no tormento das sombras, porém, retenho um pouco de felicidade enquanto a vida chama por mim ainda, deixo-me criança perdida chilreando como pássaro solto e deixo que o vento ecoe o meu nome num comprido corredor, numa sucessão de dias, mesmo que a morte espreite...meu lugar é entre os vivos e eu quero a quietude no olhar e o fogo de quem consegue ainda ser feliz... feliz com o tacto das flores, com o riso das águas, com o vôo dos pássaros, e retirar prazer das lembranças, ainda que para mais nada seja que sobreviver à solidão...

natalia nuno

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

no calor da chama



Atravessei ignotos lugares da terra, perdi-me na surpresa , fui andorinha, neste mundo de ventos e beleza...no silêncio das montanhas, nos rumores das cidades, na voz dos mares, no pranto dos glaciares, nas flores cercando-me, nos rios que correram milénios o mesmo caminho, e eu esvoacei fresca na brisa do sonho, numa esperança quase impossível, pois já sou prisioneira do tempo...ele que é inimigo de todo o ser vivente... na caminhada, os meus olhos deixam a penumbra do vazio, enchem-se de luz cintilante como o mar de verão, e nos meus lábios há mel arrancado à dulcíssima beleza que encontro mundo fora, na embriaguez da minha sede de continuar a caminhar, como se nunca fosse terminar o calor desta chama...o meu peito fica verde como frondosa ramagem, e as sombras que me inquietam deixam de me torturar, retiro da vida o espelho que me olha e me acusa e lhe grito: «tu és o meu pior inimigo...» e num misto de tristeza e alegria, surge-me um jardim de memórias que me trazem de volta a vida que encontrei e a que podia ter tido.

natalia nuno

terça-feira, 1 de novembro de 2016

também as rosas fenecem...





Também as rosas fenecem na sombra dum instante, num aprisionado grito... também eu sinto o vazio que se afirma como um negro rasgão e, já só sou o que não sou, continuo insistindo, agarrada à vida, apesar da máscara que os anos gravaram e me cortaram o vôo, só o vento me ouve quando o sonho anda baldio...pálidas são as defesas do que resta, ficaram os risos feridos e as forças humilhadas, meus dedos se instalam nos recantos do poema e meu olhar cai sobre o horizonte em plena abulia...
natalia nuno