sexta-feira, 5 de maio de 2017

inventário de esperanças...



abraço a vida, cada dia é uma oferta inesperada que vou transformando numa eterna tarde de domingo à espera do crepúsculo...olho a valsa que as folhas mortas executam sobre a poça d'água e vou decantando recordações enternecedoras, viajo no tempo e a imaginação corre sempre à frente, lavrando versos de risco e de beleza, para que a palavra não morra num tempo ignorado com a presença do silêncio...o coração recolhe um oceano de ternura que vai crescendo das linhas das minhas mãos e fixando-se na textura do papel, arrepia-se minha pele, e eu reescrevo fragmentos da minha vida, sendo eu o primeiro leitor que tudo leio com amor, e me interrogo, valerá a pena partilhar?- quem amará este inventário de esperanças, quem delas desdenhará?- eu habito aqui nas suas margens e vou perdendo o rumo da força, vai-se embaciando o olhar numa despedida silenciosa, numa indiferente solidão, os anos me levam perante todos os olhares e esvaziaram  meus olhos, deixando-os ao relento no entardecer... vão procurando o seu próprio alento.

natalia nuno

ser poeta...



Está dito que não é coisa fácil. Poesia é coisa séria, desista qualquer escritor de a tentar criar, não é por saber muito, nem muito bem saber escrever, poeta pode ser até analfabeto, porque a poesia lhe vem da alma, lhe nasce dum dom que possui
do qual nada o fará desistir por mais que tente. O Poeta se afeiçoa à Poesia, vem-lhe da grandeza dos seus sentimentos, e ainda que os outros lhe apontem defeitos, ele a acha uma obra superior.
Entristece se lhe fecham as portas, se o excluem, alegra-o o poder contribuir, satisfaz-lhe a amorosa admiração dos amigos,
tal como ele com sensibilidade e riqueza de expressão, numa serena ou sobressaltada esperança de dar o seu melhor.
Na Poesia se expressam sentimentos de saudade, de sofrimento, de amor...haverá  porventura mais belo? Nada se lhe pode igualar! A poesia é um impulso que vem da alma,  testemunho de autenticidade.
Eu e a minha mania da prosa...vou tentando, isto que hoje escrevi é o que sinto, os poetas são gente, por outra gente julgados loucos.

natalia nuno

ouvindo Chopin...



Estou nas nuvens ouvindo Chopin, subo montanhas, distancio-me do Mundo, esqueço as encruzilhadas da vida, e fico grata a Deus, por me dar a opção de ficar por lá até querer, quem sabe esqueça o caminho de regresso...sento-me numa nuvem branca, e voltarei em Maio, num dia lindo, haverá lilases a rebentar, e eu, irei viver a vida até ás minhas últimas forças.Os meus olhos verdes herdados, olharão uma e outra vez o mar, também o sol até desaparecer no horizonte, assim amansarei a saudade, e aligeirarei a minha ânsia.

natalia nuno

lembranças...



Hoje lembrei... nasci num dia em que o rio galgou as margens e alagou as hortas,  soltou-se livre.
Tal como ele, eu, brava nascia, não sorri nem pestanejei, gritei, trazia comigo a impetuosidade e a curiosidade p'lo Mundo onde acabava de chegar.
Dentro de mim ainda essa criança pequena, num sopro de inspiração, lá volto à infância, onde a vida tinha outro sabor, e é um amargo doce que a recordação me provoca. Para além da criança, lembro a adolescente que conservo com comovido afecto, feliz, descontraída, assim a recordo.

Orgulho-me da aldeia, amo os que lembro com saudade, pobres materialmente. mas ricos interiormente, foram eles que deram sentido e esperança ao meu desabrochar.
Hoje lembrei também dos rapazes de mãos rudes e gestos desajeitados e dos bailes onde tanto me divertia. Há uma história que conto a mim mesma diáriamente que jorra desta fonte que é o meu passado.
Passeio pelo Mundo onde me deixo enfeitiçar por belos recantos, mas é sempre a volta à aldeia que profundamente mais me absorve, onde a memória fica viva e clara.
A aldeia e eu seduzimo-nos mútuamente, há recordações que acarinho e evoco nas minhas horas silenciosas e sombrias.
E assim me vou distanciando, sentindo-me um ponto ínfimo no final do caminho.
Meu corpo já não me pertence, devora-me o tempo, mas a Poesia reconforta-me um pouco, e a memória é guardiã do arquivo das minhas lembranças.
Repito para mim:
«Tu és ainda muito nova»
Tudo não passa de ilusão
A imagem que vês no espelho
pedindo socorro não és tu,
essa não!
Carrega aos ombros aquela que só tu vês
Tu és, a que vive dentro da tua memória
Essa é que és!
A que sonha que há-de ir mais além
Já sem nada de seu
Há-de sorrir como ninguém
Como águia, voar p'lo céu.
Conquistar a Vida
Pois nasceu para voar
Olhos bem abertos
Ouvidos bem despertos
E de emoção gritar.
Que és eternamente jovem!
Sofres  da passividade
de ver o tempo a passar
Mas na saudade
Sabes o coração reconfortar.

natalia nuno
rosafogo

capricho




Ontem não vimos o sol, choveu sem violência, e ficámo-nos a olhar o rio, esse rio que já é oceano, surgiram mais umas rugas nas têmporas, enquanto as nuvens se afogavam na luz morna da tarde. A noite é agora carvão e o horizonte já abraça o crepúsculo, e eu recordo o dia de ontem, pois a amizade me arrancou um sorriso.
Amanhã uma luz macia trará um novo dia, e eu serei o que sou por quanto tempo DEUS quiser, me enviará um sopro doce do vento para me adoçar o peito, que pende um pouco para a tristeza.

A vida vai-se prolongando
e botões de lírio (sonhos) vão despontando.


natalia nuno

quinta-feira, 13 de abril de 2017

estremecimentos...



com a excitação duma adolescente acalento a esperança de dias de sóis, e deixo-me contagiar pelo aroma que brota dos laranjais, esqueci meus ais, leio cartas d'amor em voz alta afectuosamente e sinto-me gente, com um sorriso de piedade acabo por cair em letargia...assim se passa mais um dia...olho ao redor com afecto tantos sinais de vida, só meu coração é um horizonte de escombros e os meus olhos um céu esborratado a reprimir as lágrimas... estranhos sons me martelam a mente... ou será desvario? no sonho corro numa lezíria rosada onde o tempo não passa, ao longe o traço dum rio, e sonhadora sou como uma vela que não se consome, os anos não contam, eu sou  dona do tempo, flutuo no aroma das rosas, reflicto, colho um profundo silêncio,  deixo-me embalar no balouçar da aragem, e assim amenizo a cansativa viagem...são agora as sombras rendilhadas que me cobrem, a tarde me apazigua, palpitam meus dedos na escrita... eu sonhadora derrotada pelos meus sonhos, a retirar da obscuridade esta minha metade...

natalia nuno

segunda-feira, 20 de março de 2017

costumeira saudade...




um fogo breve é já a vida, é folha que cai ao chão e conhece sua velhice, é o obscurecer da beleza que não volta, é lágrima de resignação.é escutar o doentio lamento da alma...no fragor da festa tudo era surpresa a arder na carne, a iluminar o rosto, ternos sonhos, nada comparável ao tempo dos amores cujos ruídos agora se apertam no peito como cristal cortante que acaba de se partir perante os nossos olhos embora na penumbra...mãos dóceis eram outras que vão perdendo o tacto, e há um riso triste ocupando o quarto de janelas fechadas, onde só o espelho vai golpeando o futuro... murcham as flores na jarra imaginária, queimando o olhar longínquo, e irrompem as carências dum amor nunca descoberto, caem aguaceiros, oscilam os sonhos, e a chuva nos olhos bate sem piedade... rasgão do tempo de Outono que caprichosamente lhe assoma com a saudade...

natalia nuno

segunda-feira, 6 de março de 2017

loucura...



baloiço entre os sonhos e a vida num abraço de peculiar ternura e tudo são fascinações, lembranças de instantes perdidos, já distantes... na minha cabeça os ventos do outono, tão só a nostalgia me ouve, procuro romper as húmidas paredes que cercam meu olhar, retirar a presença fria que me cerca, trocar os dias monótonos por momentos felizes, e ter de novo essa força decidida que cria doçura e é amor...enruga-se o rosto, os olhos que eram estrelas ficam pássaros ocultos em quietude, enquanto vou repetindo palavras de pranto, de desejo candente, de frescura longínqua, simultaneamente sentimentos que me restam e a necessidade sonhar... o sonho sempre abarca felicidade, e traz-nos uma lágrima que nos afoga de saudade, incendeia desmemórias, e é como se o sossegado amor estivesse sempre à nossa espera...com as palavras faço colheitas de sonhos e neles sou uma violeta azul solitária flor, uma safira no rio, ou uma inquieta gazela...sou tudo o que eu quiser... enquanto na minha mão um melro cantar  sem idade e sem tempo...

natalía nuno

sábado, 4 de março de 2017

lago de palavras...



as palavras puxam pela memória, às vezes como instrumento de tortura  ficam dançando no cérebro, rodopiando com loucura e, numa irreflectida emoção incitam-me à decisão de escrever sentindo nisso  prazer e como de costume, a saudade arma-me o laço ... fico a baloiçar, saudade é sentimento  muita vez doloroso e a emoção perturba e destrói o coração... escrevo então um lago de palavras onde coloco o mais bonito cisne branco sob a luz das estrelas...criado do nada, surgindo do oásis da minha mente... e o que até então parecia inalcansável,  pela exigência da saudade torna-se possível, surge o poema com uma estranha sedução e a sede dum rouxinol ardendo na memória...coloco a inquietude na frescura dos verbos e a dor vivifica nas metáforas,  faço juramento que não lavrarei mais versos, nem sequer pequenos fragmentos, deixarei meus pensamentos no silêncio, na dor que passa, onde me exilarei sem retorno como lenda ao abandono...como o recolher duma flor...numa tarde de outono...

natalia nuno

sábado, 25 de fevereiro de 2017

sou tua...pequena prosa



não sei por quanto tempo vou caminhar, da garganta do tempo me vem esta solidão e é com ela que vejo meu mundo a desabar...ecos chegam de alguma voz distante e em lufadas de vento percorrem-me o pensamento, enquanto meus dedos crepitantes continuam a escrever, a agarrar-se à poesia como arpões, aos poucos morrendo de ilusões e nas janelas das minhas insónias procuro ainda o sonho e pequenas sensações que espalho em meu alento, sem que nada nem ninguém as destrua, porque o sonho é meu e nele eu sou tua...há uma sombra que surge denunciando passos e apesar da decadência eu sonho ainda com teus abraços...constante e cega, vivo nessa loucura da qual já não há volta, nesta fria obscuridade abro de par em par o coração deixo nele à solta para sempre a saudade.

natalia nuno

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

violenta-me o tempo...



quando fecho os olhos, alcanço estrelas que me iluminam no silêncio turvo das palavras, visita-me o futuro, e o frio trespassa-me até aos ossos, que mistério esconde?... acato o destino, as palavras concedem-me a dúvida que me deixa numa indefesa inquietude...tremem as minhas horas, abandono-me entre o monte e a urze e ali fico semente, a aguardar por germinar ainda um pouco mesmo sendo a minha estação o outono...sussurra-me o vento, trazendo-me sensações de velhas recordações e a minha memória, irrompe como uma borboleta cujas asas já mal se se sustêm, ainda assim, vive nelas a lembrança dum amor vivaz...o tempo pôs a sombra no meu rosto, enquanto o sol se escondeu no arvoredo, o silêncio se fez com chicotadas na mente, na boca palavras errantes e vazias, e no olhar os raios prateados da lua, a velar-me os pensamentos.

natalia nuno